10 julho, 2018

sobre amor e liber(materni)dade

você me deu a vida
e não só por isso sou agradecida,
não só pela cama e pela comida
ou por sozinha ser minha família
pela metade do meu código genético
fatores internos e externos
miopia ou problemas alérgicos
pela coragem que sempre me deu
pelos valores que estabeleceu
por me ensinar a buscar o que é meu
a sua metade me fez mais prudente
a outra metade me diz o contrário
alguma coisa me fez diferente
eu não preciso de itinerário
desde que nosso cordão foi cortado
construímos diversos atalhos
que nos levam a caminhos
cada vez mais separados
sei que quando me deu a vida
você não a emprestou
isso não é uma despedida
onde eu for levo o seu amor

viver com sentido

eu não vejo sentido
em arrumar emprego, casa, marido
em trabalhar pra comprar coisas que não preciso
e produzir um lixo que o planeta não comporta
descontar o meu vazio em um pedaço de torta
e fingir que não me importo, e fingir que não me toca

o desespero da mãe do menino assassinado na quebrada
a mão estendida de quem tem fome ignorada
o tanto de lixo solto na praia, a falta de amor e de compaixão
o valor demasiado das coisas mortas, do dinheiro
em comparação com a importância de um rio inteiro

me conforta saber que preciso de pouco
de um bom pedaço de natureza
de olhos para admirar a beleza
e uma rede pra descansar
amigos para falar sinceridades
e verdades pra buscar

se não for pra viver com sentido,
eu não vou nem lá
me encanta essa liberdade de querer-te
de as vezes te querer tanto em segredo
e deixar escapar o momento...
me conter em apenas pensar
e não me cego de tormento
quando encontra outros lábios

meus lábios não estão sedentos
porque ainda é cedo
ainda é de perder e ceder
ainda há de haver medo

enquanto isso posso sentar ao seu lado
sem te tocar
manter aceso o desejo
e deixar que o tempo
traga a hora certa e o lugar
e quase tanto passamos sem nos tocar...

mas não ainda...
não agora aflito, afoito, perdido
deixe que se perca em outra
deixe que se encontre
deixe que encontre sozinho uma maneira de me encontrar


05 abril, 2018

Zum de vespa azul, tiz de rabo de cobra
O meu sentimento sobra
O seu esta vazio
Voce é um rio que corre pra longe
E me deixa pra tras
E eu um barco parado atracado no cais
Na minha cama encontrei os lencois
Dormi e acordei pensando nos
Na sua mao em lugares que nunca tocou
Como o fim de uma trilha que nunca chegou

04 agosto, 2017

um quase dia um quase rap

quando penso na paz eu não vejo futuro
o problema do sistema tá estampado nos muros
o dinheiro nessa terra vale mais que a vida
a evolução espiritual já foi esquecida
minha vida hoje entrego a batalha de cada dia
de seguir sem moscar, sem me passar, sem hipocrisia
me conhecer, me entender, fazer valer o que minha mãe passou,
pra me criar, me educar, comprar computador
e não me deixar terminar como meu pai terminou
mulher e mãe solteira, bebê que chora a noite inteira
e que faz sempre o trabalho dobrado,
mulher fruto do sistema e do patriarcado
e além da minha mãe outras presas e sem amor,
pensar nessas mulheres me traz muita dor
mas também me dá força de vontade

pra não fechar os olhos pra essa realidade
de machismo, de racismo e de tantas maldades
que estão no alicerce da nossa sociedade

na minha caminhada já dei muito tropeço
já tentei até pular
mas a cada queda sei que amadureço
exercito a empatia
todo mundo merece um recomeço
mas daqueles que feri eu nunca me esqueço
e aos que me fizeram bem carrego muito apreço


10 junho, 2017

choro inútil

que minhas lágrimas, quando houverem, nunca sejam em vão.. que o meu pranto alimente o rio jacuípe, que inunde da bahia ao recife, que irrigue de norte a sul, que banhe o leito do paraguaçu, que minha água vá direto pra o são francisco, que faça chover no sertão... mas estou sentada no asfalto e por maior que fosse o desencanto, por mais alto que fosse o pranto, já adianto que não iria dar...
seria no máximo vapor no ar, gota no chão... salvador em dia nublado, alagamento em qualquer favela, chuva no desabrigado, desabamento na paralela... ah... não vale a pena não.

06 junho, 2017

"eu sou uma pessoa diferente agora."
repito isso sentada no chão deixando escorrerem lágrimas ao apertar os olhos para não cair em prantos.
"viver essa vida já não é pra mim, já está cada vez mais difícil fingir que consigo... que projeto ilusões e desejos nesse mundo dos cegos. em seguir o caminho das pedras. ainda carrego muito medo mas tem me crescido a coragem de abandoná-lo. sei que a vida é feita para ser difícil. e eu sei que voltarei a chorar, sei que cairei em prantos outras vezes, mas jamais novamente por não ter coragem de ir."