"É difícil perder-se. É tão difícil que provavelmente arrumarei depressa um modo de me achar, mesmo que achar-me seja de novo a mentira de que vivo." (Clarice Lispector)
13 outubro, 2015
quando me ponho a escrever uma história sei que será sobre mim. não admitirei em público, não deixarei necessariamente claro, usarei nomes fictícios, contarei sonhos como se fossem fatos, criarei personagens que se distanciem, falarei sobre eles pra vocês. contarei sobre mim para eles para que façam de forma que se pareçam com você. para que você leia e pense em segredo: isso foi escrito para mim. guardará para si a sensação de identificação. sentimento secreto. se contar a alguém que se identifica de tal forma pode ser um perigo. esse alguém saberá que você é o personagem, saberá que sou eu você e você é também ele. imagina se descobre que seus preciosos sentimentos guardados são compartilhados. isso é capaz de enlouquecer um. capaz de enlouquecer todos.
30 setembro, 2015
coisas
em meio as roupas na sua cama, os livros, papéis, xícaras de café como cinzeiro e os pensamentos de ansiedade escuta o silêncio das coisas. é um momento da madrugada onde nada mais pode ser feito e as coisas para fazer, os livros, artigos, obrigações, decisões profissionais ou amorosas a circulam lembrando de forma inútil o tanto que havia para depois, o tudo que viria a presenciar, lembravam que sempre haveriam coisas, que elas sempre estariam ali. presenciava os detalhes de tudo para lembrar-se depois e comparar, sabia que a mudança nas pequenas coisas ajudava a disfarçar a mesmice cotidiana. o corte de cabelo, a mudança na disposição dos móveis, os edifícios recém construídos, outdoors substituídos. se forçava a perceber lentamente a mudança das estações. na sua cidade não nevava nem havia um mar de folhas no outono mas o seu olhar cada vez mais treinado notava a mudança na vegetação, nos horários da movimentação dos pássaros, no tamanho dos astros. fazia questão de testemunhar as fases da lua, eclipses e tempestades.
atravessar a cidade era como assistir a um filme. fazia de tela a moldura de seus óculos, sempre em primeiro plano, amava o travelling que andar de bicicleta lhe proporcionava. entretanto não havia edição que deixasse a montagem menos óbvia. nessas cenas ressaltava-se a redundância. a ordem superava o caos. era a ordem que a sufocava. respirava quando percebia os matinhos que nascem entre os azulejos, o musgo que escala o degrau úmido pela goteira de ar condicionado.
amava muitas árvores. checava todos os dias em seu caminho se elas ainda estavam lá. lembrava-se de uma árvore em especial que, quando criança, observava diariamente e que nomeou como "mão da bruxa"- uma raiz que, rompendo o cimento, brotava a calçada e se dividia em cinco longos dedos com unhas pontudas. aquelas longas raízes das grandes árvores de sua cidade é que realmente testemunharam as lentas e contínuas transformações do espaço. como podiam permanecer? como conseguiram por longos anos sem fugir? não tinham medo de que fossem elas a próxima mudança?
atravessar a cidade era como assistir a um filme. fazia de tela a moldura de seus óculos, sempre em primeiro plano, amava o travelling que andar de bicicleta lhe proporcionava. entretanto não havia edição que deixasse a montagem menos óbvia. nessas cenas ressaltava-se a redundância. a ordem superava o caos. era a ordem que a sufocava. respirava quando percebia os matinhos que nascem entre os azulejos, o musgo que escala o degrau úmido pela goteira de ar condicionado.
amava muitas árvores. checava todos os dias em seu caminho se elas ainda estavam lá. lembrava-se de uma árvore em especial que, quando criança, observava diariamente e que nomeou como "mão da bruxa"- uma raiz que, rompendo o cimento, brotava a calçada e se dividia em cinco longos dedos com unhas pontudas. aquelas longas raízes das grandes árvores de sua cidade é que realmente testemunharam as lentas e contínuas transformações do espaço. como podiam permanecer? como conseguiram por longos anos sem fugir? não tinham medo de que fossem elas a próxima mudança?
29 setembro, 2015
o sol aparece feito vagalume fluorescente, feito mosca insistente em zumbizar. acorda meu corpo mas minha mente é cada vez mais resistente em despertar. acordar para vida e para morte, para o frio e o suor, para sorte e o azar. alegria ou tristeza. seja beleza ou feiura, chão ou céu, azul ou nublado. minha única certeza está no passado, toda esperança deve estar no futuro. e agora? no presente afora não sei nem espero, não prometo nem peço, apenas gasto cada dia como se o passado fosse ilimitado e o futuro desesperado em se transformar em passado. só o passado sabe, só o passado é. só o passado não precisa acordar. eu não. presentemente corro enquanto a largada me segue. nunca chego. não alcanço. nunca deixo de correr. o caminho se repete em vida e morte, frio e suor, azar e sorte, beleza e feiura, alegria e tristeza, chão, céu, nublado, azul em vagalume fluorescente, em mosca a zumbizar............
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