30 setembro, 2015

coisas

em meio as roupas na sua cama, os livros, papéis, xícaras de café como cinzeiro e os pensamentos de ansiedade escuta o silêncio das coisas. é um momento da madrugada onde nada mais pode ser feito e as coisas para fazer, os livros, artigos, obrigações, decisões profissionais ou amorosas a circulam lembrando de forma inútil o tanto que havia para depois, o tudo que viria a presenciar, lembravam que sempre haveriam coisas, que elas sempre estariam ali. presenciava os detalhes de tudo para lembrar-se depois e comparar, sabia que a mudança nas pequenas coisas ajudava a disfarçar a mesmice cotidiana. o corte de cabelo, a mudança na disposição dos móveis, os edifícios recém construídos, outdoors substituídos. se forçava a perceber lentamente a mudança das estações. na sua cidade não nevava nem havia um mar de folhas no outono mas o seu olhar cada vez mais treinado notava a mudança na vegetação, nos horários da movimentação dos pássaros, no tamanho dos astros. fazia questão de testemunhar as fases da lua, eclipses e tempestades.
 atravessar a cidade era como assistir a um filme. fazia de tela a moldura de seus óculos, sempre em primeiro plano, amava o travelling que andar de bicicleta lhe proporcionava. entretanto não havia edição que deixasse a montagem menos óbvia. nessas cenas ressaltava-se a redundância. a ordem superava o caos. era a ordem que a sufocava. respirava quando percebia os matinhos que nascem entre os azulejos, o musgo que escala o degrau úmido pela goteira de ar condicionado.
amava muitas árvores. checava todos os dias em seu caminho se elas ainda estavam lá. lembrava-se de uma árvore em especial que, quando criança, observava diariamente e que nomeou como "mão da bruxa"- uma raiz que, rompendo o cimento, brotava a calçada e se dividia em cinco longos dedos com unhas pontudas. aquelas longas raízes das grandes árvores de sua cidade é que realmente testemunharam as lentas e contínuas transformações do espaço. como podiam permanecer? como conseguiram por longos anos sem fugir? não tinham medo de que fossem elas a próxima mudança?

29 setembro, 2015

por favor parem
não existe evolução
não existe essa de "desenvolvimento"
o caminho não é linear
a partida não é comum
o percurso não é o mesmo
a distância não é parâmetro
o sol aparece feito vagalume fluorescente, feito mosca insistente em zumbizar. acorda meu corpo mas minha mente é cada vez mais resistente em despertar. acordar para vida e para morte, para o frio e o suor, para sorte e o azar. alegria ou tristeza. seja beleza ou feiura, chão ou céu, azul ou nublado. minha única certeza está no passado, toda esperança deve estar no futuro. e agora? no presente afora não sei nem espero, não prometo nem peço, apenas gasto cada dia como se o passado fosse ilimitado e o futuro desesperado em se transformar em passado. só o passado sabe, só o passado é. só o passado não precisa acordar. eu não. presentemente corro enquanto a largada me segue. nunca chego. não alcanço. nunca deixo de correr. o caminho se repete em vida e morte, frio e suor, azar e sorte, beleza e feiura, alegria e tristeza, chão, céu, nublado, azul em vagalume fluorescente, em mosca a zumbizar............